Sempre quis fazer algo com essa música. Sempre achei ela muito louca: Brainstorm, do Arctic Monkeys, cd de 2007 (Favourite Worst Nightmare). Aproveitem. Ahh... estreiando mais novo player... a saga continua !! ahuahuahuahu

Sempre quis fazer algo com essa música. Sempre achei ela muito louca: Brainstorm, do Arctic Monkeys, cd de 2007 (Favourite Worst Nightmare). Aproveitem. Ahh... estreiando mais novo player... a saga continua !! ahuahuahuahu
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Don Diego
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21:31
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Voltando devagar à escrever, começo a escrever esse que sempre quis. Com a música Prehensile Dream do The Bad Plus, banda de jazz que sempre gostei. A música é do CD Suspicious Activity de 2005 e vale muita a pena ouvir, é espetacular.
p.s.: troquei o servidor de podcast. Deu errado e cansei de procurar um podcast host bom... então vamos de youtube mesmo. =]Olívio ia dormir sempre do mesmo jeito: no seu pijama de seda, na sua cama king size, com a mulher que todos desejavam, na mansão que todos sonhavam. Apesar da sua idade - estava na casa dos cinqüenta - sentia-se jovem o bastante para almejar sempre novos objetivos. Muitas vezes era por pura ganância; era simplesmente por querer "colecionar troféus", materializar as coisas e as pessoas. Por isso, era considerado um homem rico, bem sucedido, mas pouco ligado a valores sentimentais. Perguntavam-lhe o por quê de ser assim tão arrogante; ela respondia que era porque ele merecia.
Merecimento foi a palavra que cerceou a vida dele e, toda noite, quando ele ia dormir, lembrava-se dos seus maiores feitos e conquistas; no fundo da sua mente, ele ouvia uma pergunta, bem baixinho, que indagava se tudo aquilo valia a pena. Por isso ele sempre demorava para pegar no sono e dizia que tinha um pouco de insônia pela preocupação que os negócios lhe davam. Mas não, era sempre aquela auto-crítica que o corroía. E Olívio se sentava na cama, olhava seu quarto gigantesco por inteiro e sentia-se vazio. Sempre que ficava assim, costumava pegar uma colher de prata que o pai dele lhe havia dado logo quando Olívio saiu de casa para fazer a vida e lhe fez prometer que só usaria aquela colher em um momento nos qual não havia mais saída, a não ser se desfazer daquele talher.
Enquanto fitava a colher, o sono vinha e o embalava, debaixo de maravilhosos lençóis de cetim e edredons importados. Seu olho fechava e ele esperava um sonho; este que não vinha novamente havia anos, muitos anos. Foi quando tinha uns dezesseis anos, na noite de Natal, quando sonhou com um brinquedo que nunca teve. Desde lá, nem sequer um pesadelo preenchia suas noites de sono. E ainda com a colher na mão, ele sentiu-se ficar leve, naquele momento que o sono vem e nos leva.
Logo depois, sente o sol nos seus olhos, atrapalhando seu sono. Perguntou-se se já era de manhã. Nesse pequeno momento de lucidez percebeu que seu colchão não estava muito bom e que tinha passado um pouco de frio à noite, além de perceber alguns cheiros diferentes no lugar. Ele tenta fechar os olhos para dormir e não consegue. Ficava imaginando quem pode ter sido a pessoa que abriu as cortinas da janela. Olívio, então, abre os olhos por completo. Não vê as cortinas e nem as janelas, nem seu closet gigantesco, nem sua cama, nem seus lençóis, nem nada. Seria um sonho? Finalmente ele estava sonhando? E então, tenta se levantar, mas percebe que dormiu no chão e só se senta. Olha para a frente, no horizonte, o sol está nascendo com sua cor e calor únicos; o que deixa Olívio maravilhado, pois fazia tempo que não prestava atenção nisso.
Mas, tinha algo errado. Quando consegue se acostumar com aquela luz no rosto, vê que está dormindo na marquise lateral de um restaurante de posto de gasolina. No chão, em meio a trapos, com mais gente. Parecia sua família, pois havia duas crianças e uma mulher, como na vida real. Acha engraçado a verosimilhança entre o sonho e a vida real, e, para finalizar as coincidências, ele sente fome. Mas, uma fome que nunca sentiu: aguda e persistente, fazendo-o assustar com o que estava sentindo e procurar formas para sair daquele sonho. Tenta se levantar, mas tem dificuldade, pois encontra vários machucados pelo corpo e um sapato seu não tem sola quase nenhuma.
Olívio verifica suas roupas. Todas sujas e rasgadas, seu cobertor era horrível e pequeno para o corpo dele e mais ao lado tinha uma pequena mochila com seus pertences. E como ele fedia; não estava se aguentando. Esse sonho estava real demais. E então ele caminha em direção ao posto e tenta falar com um dos frentistas; sem sucesso, é mal tratado e escurraçado pelo rapaz... que, aproveita, e pede para ele sair dali para não espantar os clientes.
Olívio começa a se desesperar com aquilo tudo... caminha de costas olhando para o frentista, assustado; tropeça e cai. Ao cair, olhou para cima e o céu estava lá, azul e lindo ainda - naquele momento lhe deu uma paz tão grande, achou que ia voltar do sonho. Bateu a cabeça no chão com tudo e fechou os olhos. Quando abriu-os novamente, o mesmo céu. Fecha e abre-os de novo. O mesmo céu de novo. Levanta, agora com um galo na cabeça e vai para onde estão as suas coisas.
Chegando lá, olha ao lado, vê a mulher e os filhos. Acorda-os e tenta se explicar. Eles só falam que estão com fome e aonde seria melhor para mendigar. Olívio os ignora e pega sua mochila ouvindo os gritos de sua mulher e filhos perguntando aonde ele iria. Ao pegar sua mochila, algo cai no chão e o barulho o chama a atenção... parecia familiar. Ao olhar, verifica que é a colher de prata do seu pai, da escrivaninha do lado da cama de dormir...
Mas que cama, que escrivaninha, que pai? Ele não era mais ele mesmo. Era um indigente! Fora de si, pega a colher e a joga longe... grita e se desespera mais ainda. Xinga a tudo e todos, roga pragas. Sua família vem atrás dele e não entende o que ocorre; nesse meio tempo, alguns funcionários do posto já tentam expulsar a família de mendigos do local. Olívio já se dirigia à rodovia e, ao passar pela colher que havia jogado longe, a pega e a inspeciona... está limpísima... tanto que na cavidade côncava consegue ver uma imagem do seu rosto: uma barba espessa e suja, cabelo mal cortado e grande, dentes sujos e boca machucada.
Segurando a colher, sai correndo desesperadamente deixando a confusão para trás, até que fica num lugar mais silencioso. Olha para trás... sua família acaba de sair do posto. E o segue de longe, uma distância boa. De onde está, consegue ver a sua mulher gesticulando para ele esperar. Olívio pensa. A colher é apertada pela sua mão direita e, desse jeito, resolve ir em direção da sua família.
No meio do caminho, desvia do caminho e vai para o meio da rodovia. Um caminhão vem na direção contrária em alta velocidade, tenta frear e desviar. Não consegue e pegará Olívio em cheio. No segundo antes, vem tudo à sua mente: quem ele era, o que ele fazia, o que ele queria... tudo fica claro e simples.
No segundo depois, ele acorda como se fosse de um susto e dá aquela respirada funda. Está em uma cama. Em um hospital, ligado à vários aparelhos que, com a súbita levantada da cama, se desconectam e começam a apitar freneticamente. Logo depois, entra uma enfermeira que o olha e sai pelo corredor dizendo alguma frase que foi difícil de entender... falando como se ele tivesse acordado. Ela volta e diz para ele se acalmar, pois tinha acabado de acordar de um coma. E que tudo seria explicado.
Ele olha ao redor. Não reconhece nada. Passa o olho na escrivaninha ao lado da sua cama... fica tentado ao abrí-la, não sabia por quê. Ele vai a abrindo devagar, e vai se formando a imagem de uma colher de prata. Olívio a pega e sente algo muito estranho, sabe que ela é mais que uma colher... é como uma chave. Nesse momento, ele percebe que não sabe quem é, não sabe o que estava fazendo ali. Então, ele deita... pela janela do quarto o céu estava azul. Segurando fortemente a colher, ele fecha os olhos e dorme novamente.
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Don Diego
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19:25
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Lembradores colher, lembranças, sonho
Como faz tempo que não entro e não posto nada... vou recomeçar devagarzinho. Mas, estou cheio de idéias... :D
Esse conto vai para a minha namorada Flávia, que faz da minha vida um belo conto de amor. Música do Monobloco, show ao vivo em 2005, um pout-pourri de Orixás (do próprio Me Anunciação (essa do mega Alceu Valença).
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Don Diego
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20:02
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Um dia de cão é um dia de cão. E cachorro é um animal que sabe como derreter o que quiser, chegando a ser insuportável às vezes sua dedicação. E quando falo em cachorro eu disse cachorro, não alguns animais malucos que saem matand0 velhinhas inocentes. História baseada, e bem "ficcionada" (não teve nenhuma cheirada na realidade), numa passagem ocorrida com a grande amiga Eugênia, mais uma vez ajudando o blog andar. Para acompanhar, Tim Maia cantando Réu Confesso, que confesso, não combina no início, mas do meio pro fim...
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Don Diego
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Lembradores alma, eugênia == eugênia, ódio, réu confesso, vira-lata
2007 já foi, não é? Então falaremos de 2008, pois o ano que passou foi interessante: cheio de boas idéias, bons aprendizados; mas com muitas pancadas. Alguém deve ter me avisado para pisar devagarinho em 2007, mas não ouvi, eu imagino. No som, Originais do Samba com Alguém me avisou. Uma das músicas que moldam meu caráter quando isso é necessário. Já sabem como que funciona, né? Aperta o play e, como diria umas certas mulheres, :P vai.
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Don Diego
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16:23
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Lembradores ano novo, ano velho, bahia, família, fogos, foram me chamar, samba
Frank Sinatra não foi um ser humano. Foi algum pedido atendido de uma mulher desesperada por um homem perfeito... daí veio o blue eyes. Minha dúvida é: que mulher com uma mente tão desenvolvida pediu um cara como ele? No meu simples julgamento, não há rapaz melhor para externar seus sentimentos por uma moça em especial. No podcast, ele moendo com Loves been good to me. Clica em play e vai lendo o conto. Acabou a música, mas o conto não? Clica no play de novo, faz favor!
p.s.: dedico a uma amiga, a Gaybis que anda odiando algumas substâncias produzidas pela seu hipotálamo e adora ir na casa do Pedrinho.
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Don Diego
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19:08
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Lembradores 1 estrela, 2 cambalhotas, hipotálamo, moça, rapaz, sorriso
Destruindo a mente com Chemical Brothers (de novo?) com a música My Elastic Eye, do CD Come With Us de 2002. E agora com novidade. A partir desse conto, a música vai junto... abaixo tem um podcast com a música. É só clicar no play e começar a ouvir e ler o conto. Agora sim ficou tudo perfeito. Mais informações sobre esse podcasting que estou usando: Odeo.
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Don Diego
às
13:43
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Lembradores chemical brothers, mãe, planta, samambaia
De volta, e ouvindo a velha, boa e transcendental Saturate do Chemical Brothers.
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Don Diego
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09:32
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Lembradores céu, crianças, desejo, estrelas cadentes, saturate, sonhar, voar
Ouvindo na seqüencia Dirty Mutha, do Steed Lord, banda basicamente necessária; The Party e Stress do Justice, outra paulada. Nessa seqüência, dá para entender um pouco do conto também. Não deixem de ouvir. Com a cabeça reclinada na poltrona, ela não queria abrir o olho de jeito nenhum. Passa um avião, seus olhos temam em abrir. Passa outro avião, seus olhos abrem e vêm a luz solar atravessando o teto de vidro do aeroporto. Ela sabe que quando acorda, dali para frente, seriam só cinco minutos, depois não sabia de nada que aconteceria.
Verificou seus pertences e estava tudo certo... percebeu a boca seca e a ressaca gigante. Veio alguns flashes da noite seguinte... algumas coisas difusas: música alta, lugar escuro, muita gente e muita luz. Olha para o corpo e vê a roupa um pouco amassada... imaginou que dançou muito na noite anterior; mas que não tirava a classe e o estilo da roupa, que, inclusive chamou a atenção do senhor à sua frente, que não tirava o olho dela.
O velho leva uma encarada da moça; depois de embaraçado, o senhor fica incomodado com o olhar dela: duro, penetrante, raivoso... incomodava mesmo. Dava vontade de perguntar o que ela tem! E óbvio, de bater nela, pois ela não responderia... o velho fica zangado. Não agüenta e vai tomar um café.
Viajar não era muito com ele, sabia? Ele sempre foi meio azarado. Sempre acontecia algo estranho, como aquela moça agora! Ela somente lembrava a neta dele, poxa! Não precisava dela olhar daquele jeito. Nesse meio tempo, ele pede um capuccino para a moça que o atendia. Enquanto ele pedia, um executivo entra na sua frente.
"Sem café preto não funciono!". Pensava o executivo. Não se incomodou em pular na frente do velho e pedir seu café preto... seu jeito intimidava as pessoas: era imponente, sempre usava um terno de marca impecável, decidido, pensava rápido, percebia coisas que poucos percebiam, centrado: parece que tinha saído de uma dessas bíblias modernas sobre como se dar bem na vida.
Ele consegue uma mesa e abre seu laptop. Ia ver seus emails... poderia ter algo importante antes de ele embarcar. Lei de Murphy. Olha um em especial, era de sua mãe: mandava fotos do aniversário do filho dele, dizia que tinha sido excelente e que ele fez muita falta... deu a entender que ele não andava fazendo seus deveres paternos. Ahan! Se ele não faltasse na festa, ela teria que faltar na próxima viagem para a Europa mês que vem... que absurdo! Já não bastava perder a festa e ainda ouvia sermão... Alguém quebra a concentração dele.
"Só tinha lugar aqui. Eu vou sentar." O cara de branco parecia um médico, mas com as unhas muito comidas. Ele vê o cara com o laptop sozinho na última mesa e vai direto para lá. Precisava sentar para clarear as idéias... pegar seu caderno de anotações para saber aonde ele estava, para onde ia e qual era a próxima coisa que teria que fazer.
Todos sabemos que ser médico é muito difícil. E psiquiatra, ninguém sabe? É muito pior. Tem que ter uma cabeça que nunca se viu. Muito equilíbrio emocional, muitas formas de separar trabalho da vida real, fazer yoga, não ficar estressado nunca. Tratar de gente no estado que ele as recebe é como desacreditar um pouco de cada vez nos seres humanos. Quando o paciente tem a causa do seu problema espelhada em ações de outras pessoas, não tem cabimento. É a anunciação do fim do mundo, como ele pensava. Algo está entrando em colapso no sistema e não seria interessante o desenrolar disso.
No alto-falante, o avião tal é chamado num certo portão. Os quatro se levantam, se dirigem para o local certo, entram no avião. O avião decola, pega altitude e ruma para o seu destino. No meio, enquanto serviam um lanche, o comandante da nave começa a falar.
O comandante começou com um argumento legal: sabia que a chance de você encontrar em outra ocasião algumas das pessoas que estão do seu lado e que você não conhece é menor que 1%. Ele disse que acreditava que tinha cinco minutos, duas vezes ao dia, cruciais: na qual ele gastava conhecendo alguém que nunca tinha visto antes e o outro no qual ele ficava em silêncio completo para se conhecer.
Cinco minutos depois, a garota está chorando baixinho sentada no banheiro do avião. Viu que, para uma jovem, sua vida era tão vazia que ela poderia passar anos em silêncio que ela não faria nenhuma diferença. O velho tinha pensado em morrer e ficou os cinco minutos em silêncio olhando a paisagem da janela; não gostou, viu que era melhor ser azarado do que ficar sempre calado. O executivo... esse... achou o discurso do piloto um lixo e nesses cinco minutos ficou arranjando maneiras de brincar com esse discurso, para quais amigos ia contar, ria sozinho... no fundo, se sentiu tão sozinho que não foi capaz de ficar em silêncio por cinco minutos. O psiquiatra olhava as mãos em silêncio: foram os primeiros cinco minutos fazia anos que prestava atenção nele, de que era ele quem precisava de ajuda, nos quais não ouvia os próprios gritos.
Para fechar, o piloto passou cinco minutos conversando com uma linda nova aeromoça e marcou um ótimo almoço, recheado de segundas intenções. E pensava qual assunto legal falaria na próxima viagem.
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Don Diego
às
20:54
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Minha grande amiga Eugênia não gostou de ser referenciada da forma que foi no último conto. Por isso ela resolveu mostrar seu ponto de vista... sobre A Corrente. Canal de comunicação aberto. Música: Breakout - Foo Fighters. Junta a música com o ódio no coração. Mas, eu achei excelente essa idéia e o conto... alguém mais quer brigar?
* para entender melhor, leia o conto "A Corrente", caso não tenha lido ou esquecido. Depois volte aqui. É imperdível.
Outra segunda-feira como todas as outras. Eugênia, a secretária, ia pro trabalho e não é que estivesse acordado propriamente mal-humorada, mas preferia ter dormido mais algumas horas. Ou semanas...
Chegou pontualmente ao escritório e constatou que Pedro, seu chefe, ainda não havia chegado. Ele não era de chegar cedo, quanto mais às segundas! Se presidente de banco ela fosse, também não chegaria na hora.
Assim que Pedro entrou em sua sala, Eugênia passou as tarefas do dia, acompanhadas de um comprimido pra dor de cabeça. Ele, sabia ela, não passava sequer um minuto dos seus finais de semana sóbrio. Bebia como um compulsivo garrafas e garrafas da sua querida vodka Babicka. Mal sabia que essas garrafas eram freqüentemente enchidas de Natasha, medida de economia recomendada pessoalmente pelo pai de Pedro, verdadeiro fundador do banco.
Voltou para sua mesa. Pedro achava que a sua secretária passava o dia lendo horóscopo na Internet. Ledo engano: ela desenvolveu ao longo dos anos essa capacidade de não pensar em nada. Por isso não é de se estranhar que olhasse sem ver o monitor de seu computador.
Trabalhava como secretária desde importante homem de negócios há anos. Suspeitava ter conseguido o emprego (bem ou mal, concorrido) não exatamente por suas habilidades técnicas. Aliás, na última festa de fim de ano do banco ouviu de seu chefe:
- Você é má. Adoro mulher má. Se for gostosa então... aí eu apaixono.
Desde então ela se preparava para o momento em que daria queixa do chefe por assédio, já até sabia onde ficava a delegacia mais próxima e como chegar lá sem pegar engarrafamento. Era uma mulher prática.
Não era uma má funcionária. É bem verdade que quase sempre não gostava do seu trabalho, tinha vontade de mudar tudo, voltar ao começo. Mas essa segunda-feira era só um daqueles dias de revolta que todas as pessoas normais têm, ou deveriam ter. Se perguntava como foi deixar a vida chegar àquele ponto. Seus 30 anos se aproximavam ameaçadoramente e ela não estava satisfeita. Enquanto fingia estar ocupada, sonhava com praias desertas e finais felizes.
Tinha muito trabalho pela frente, mas desde há muito seguia uma teoria segundo a qual quanto mais tarefas se têm pra fazer, menos é necessário ser feito. Afinal, poderia sempre alegar que estava ocupada fazendo outra coisa.
Perdida em seus devaneios, Eugênia ouviu um forte estrondo na sala do chefe. Relevou, resolveu esperar pra ver se passava. Outro estrondo, dessa vez acompanhado pela imensa mesa de mogno da sala de Pedro. A mesa foi empurrada através do hall pelo dono, que tinha manchas de sangue na camisa branca.
Os funcionários se desesperam. Gritaria. A secretária suspira e fala pra ninguém ouvir: eu não ganho o suficiente pra isso. Entrou na sala destroçada de Pedro para ver o que estava acontecendo. Este, aparentemente calmo, tirou da carteira um papel e lhe ditou um número. Pediu que ligasse e transferisse a ligação para a recepção. Nesse momento, nos restos de um computador, uma pequena explosão assusta a secretária.
Enquanto ele se dirige ao elevador, ela liga. Ninguém atende. Volta à sua mesa e lê rapidamente o e-mail que acabou de chegar, repassado por Pedro:
“Arrasta a cadeira de lado, faz cara de muito ódio. Saia destruindo tudo que ver na sua frente durante a música. Volte e sente no que restou da sua cadeira, no que restou da sua sala, e comece a repensar o que sobrou da sua vida. Repasse para 10 amigos e comece a revolução. Depois me ligue. Você ainda tem meu número na sua cabeça.
Com amor, Alice.”
Ligou de novo e do outro lado da linha Alice atendeu. Pensando que definitivamente o seu salário não é o suficiente para aturar surtos psicóticos, Eugênia se dirige à janela.
- Alice, o Dr. Pedro deseja falar com você, aguarde um instante por favor.
E, sem esperar uma resposta, joga o telefone, que logo alcança o chão 60 andares abaixo.
Com outro suspiro a secretária volta para sua mesa e pensa no que fazer. Ora, ordens são ordens. Repassou o e-mail de Alice para toda a sua lista de contatos, não ia nesse momento se preocupar em escolher só 10. Pensava ela que ninguém ia abrir o e-mail de qualquer forma.
E-mail devidamente encaminhado, pegou seu computador ainda ligado, arrancou os fios e o atirou pela janela, seguindo o mesmo caminho do telefone. Na sala de Pedro buscou uma garrafa de vodka e um copo com gelo e seguiu para o elevador privativo bebendo.
Foi o tempo de passar em casa, dar uma martelada no celular, buscar umas roupas e o passaporte.
Muito tempo se passou sem notícias de Eugênia. O e-mail foi lido por alguns poucos, o que criou algum caos e pânico. Anos depois, um funcionário do banco que voltava de suas férias em Kiribati disse ter visto a ex-secretária vendendo caipirinha e brigadeiros num quiosque numa praia paradisíaca, dessas com coqueiros e peixinhos.
Puxou conversa com a mulher na praia. Essa, muito embora falasse português sem sotaque, disse morar lá há muito tempo e negou ter qualquer dia trabalhado em um banco. Não seria capaz de trabalhar entre economistas e advogados. São todos loucos esses que levam a vida assim. Não desejaria essa vida por nada. Ela, disse o funcionário, parecia afinal feliz.
Contado por
Don Diego
às
18:16
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Lembradores a corrente, computador, eugênia == eugênia, kiribati, segunda-feira